Cada vez mais pessoas recorrem a criadores de conteúdo para entender temas complexos do dia a dia, de mudanças na taxa de juros a novas regras da aposentadoria. O Digital News Report 2026 confirma essa transformação: globalmente, 54% das pessoas já usam redes sociais e plataformas de vídeo para se informar, superando pela primeira vez a televisão e os sites de notícias tradicionais como principal fonte de informação.
O papel do "newsfluencer"
Nesse cenário, ganham destaque os chamados newsfluencers - criadores que atuam como ponte entre temas técnicos e o público geral. É o caso de Presley Vasconcellos, que fala sobre economia para um público formado, segundo ele, por "pessoas reais". Seu trabalho consiste em traduzir conceitos complexos e mostrar como decisões econômicas afetam a vida de quem o acompanha. "A interação com a minha comunidade funciona como uma espécie de ombro amigo", contou em entrevista por e-mail. Mas essa relação é de mão dupla: a audiência também influencia o que ele decide abordar, embora ele reconheça que "nem sempre o assunto que gera mais comentários é o mais importante".
Ampliando o debate público
Outra referência nesse universo é Ana Paula Renault, vencedora do Big Brother Brasil 2026. Para ela, comentários e mensagens diretas funcionam como termômetro das dúvidas reais das pessoas. "Muitas vezes, percebo que um assunto técnico está gerando insegurança ou desinformação e transformo isso em conteúdo", afirmou. Ana Paula destaca ainda que procura ir além dos temas em alta, buscando ampliar o repertório e o debate público entre seus seguidores.
O pesquisador da Universidade Europeia, Vasco Avides Moreira, avalia esse fenômeno sob a ótica acadêmica. Segundo ele, o diferencial de criadores como Presley está no compromisso com a compreensão e a contextualização da informação - elementos que, para o pesquisador, são centrais para a credibilidade nesse tipo de produção de conteúdo.
De onde vem a autoridade
Um ponto central da discussão é o que confere credibilidade a um criador de conteúdo de notícias. Presley atribui sua autoridade à formação como economista e mestre em Economia, somada à experiência acadêmica e ao compromisso de pesquisar antes de publicar qualquer conteúdo. Ele também não delega a interação com seguidores à sua equipe, mantendo contato direto com o público.
A jornalista e professora da ESPM Alline Daruiz reforça que as credenciais acadêmicas fortalecem a autoridade temática do criador, mas pondera que a credibilidade se constrói também pela proximidade com a audiência. "Essa proximidade tende a favorecer a percepção de autenticidade, que é um elemento fundamental para gerar confiança hoje em dia", explica.
Complementaridade com a mídia tradicional
Apesar do crescimento desses formatos, tanto Presley quanto os especialistas ouvidos evitam posicionar os newsfluencers como substitutos do jornalismo tradicional. "Quando existe responsabilidade, esses trabalhos podem ser complementares", afirma Presley. O próprio Digital News Report do Reuters Institute aponta que o consumo de notícias por criadores de conteúdo tende a complementar, e não substituir, o acesso à mídia convencional - um indício de que a checagem de fatos e a contextualização seguem como pilares essenciais, independentemente do formato ou da plataforma utilizada.